quinta-feira, 1 de março de 2012

Duas panquecas antes de dormir

Noites de Cabíria - Frederico Fellini

(a música no link ao final do texto faz parte da crônica, recomendo ouví-la durante a leitura)
Confesso a inveja que sinto de quem domina os pensamentos como quem guia um carro. Um pouco atordoado, só faço contemplar o infindável desfile de ideias e imagens que não escolhi para mim. Lolita diz que a vila toda me acusa de parvo graças ao desmazelo das minhas roupas e ao inútil das minhas ocupações prediletas. Mas não me recordo de ter sido vítima desses boatos, ou de ter me importado com isso, o que vem a dar no mesmo. 


Isso não quer dizer que eu seja completamente alheio ao que penso, acontece que o proveito das ideias para mim vem só depois, como uma lucidez tardia de realidade passada. Com essa réstia de mundo componho minhas esperanças. Hoje decidi que ontem tinha resolvido passar a manhã de hoje nas ruas levando a poeira suspensa no ar para um abrigo tranqüilo. Pastorear poeira requer grande sabedoria, é preciso conhecer os rebotes de luz que revelam o balé calmo e mover as mãos com delicadeza para não enfurecer o voo leve das partículas.  
Os garotos da escola caçoam de mim dizendo que podem aprender coisas tão difíceis que eu jamais conseguiria entender. Bato na cabeça com a mão fechada imaginando mil complicações. Entalhar um bom verso, descansar o olhar ébrio da noite com sonhos de cinema. Lolita diz que eu sou um relógio atrasado e que relógio que atrasa não adianta (e se ri do trocadilho infame).
Ora, os pensamentos, eles de fato não servem para nada, podem no máximo fazer uma alma triste ou feliz feito um balão de papel que se inflama sobe e arde até se consumir e sumir no céu todo metralhado por milhões e milhões de estrelas rebrilhantes. Para me livrar deles (sente como se aceleram vertiginosamente?) saio de casa e me precipito ladeira abaixo, correndo descalço pelas ruas calçadas da vila, com o corpo mais leve a cada passo mais veloz, os calcanhares já não tocam o chão, como eu fosse voar...e então voo deveras



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Itália, fevereiro de 2020


Fotografia: Folha de São Paulo

Itália, manhã fria, dezesseis de fevereiro de 2020.

A neblina continua branca como desde antes do Império Romano, mas no começo da tarde o sol fica agradável e há quem procure sua luz para se aquecer. Capitão De Falco, que já não se tempera com o clima, prefere meditar bem cedo. Comandante da flotilha “Berlusconi”, do sistema prisional italiano, ele não chega a esvaziar a mente por completo em seus longos silêncios cheios de recolhimento, respira devagar até aliviar a violência dos pensamentos. Relaxado, às vezes sente sono, mas não abre mão de aproveitar o bom espírito para começar o dia.

Hoje é manhã de ronda nos mares de Giglio, de triste memória. O navio ainda está lá, atrás do véu de neblina, como um ônibus capotado e esquecido. De Falco, festejado herói nacional daquele episódio, lembra janeiro de 2012 como o início da bancarrota. O que não é bem verdade, a Europa começou a naufragar em 2008, quatro anos antes que o Costa Concórdia. Seja como for, a última década turvou a alma do velho homem do mar.

De olhos fechados para as águas calmas de Giglio, pacientemente De Falco pondera consigo, nem os profetas saberiam prever que a Europa esfacelaria seus princípios e serviços para economizar dinheiro público e salvar o sistema financeiro. Transformar os navios da Guarda Costeira em prisões flutuantes foi apenas um absurdo entre outros cometidos pelo governo. Antes não existia aquela tristeza nos olhos dos santos espalhados pela Itália, nem eles anteviram a catástrofe. E é claro, não passa de ironia do destino eu terminar os dias comandando a flotilha-prisão onde Schettino cumpre pena sob a mira de torpedos inimigos. Ironia, claro...

De fato ninguém poderia imaginar que à Primavera Árabe seguiria o Inverno Europeu. Em 2019, hordas de italianos, espanhóis, portugueses e gregos passaram a migrar ilegalmente para o norte da África, em busca de recomeçar suas vidas nas recém-repúblicas como o Egito e a Líbia. Para legalizar a situação dos imigrantes europeus, porém, os novos emergentes exigem o imediato reconhecimento das fronteiras Palestinas definidas pela ONU em 1967. Agora com apoio do mundo islâmico, a Palestina ameaça atacar Israel em nome da liberdade. Em nome da paz Israel promete dizimar os muçulmanos. Com a tensão crescente, há poucos meses os países árabes africanos anunciaram uma coalizão para invadir a Europa Mediterrânea se houver guerra contra os palestinos, o que pode ter selado o fim de De Falco.

As frotas africanas não tardaram a começar os pesados exercícios de morte no Mediterrâneo. Os governos europeus também se movimentaram, cada economia em frangalhos se arranjou como pôde. A Itália transformou em prisões algumas flotilhas da Guarda-Costeira, adaptando os barcos para manter condenados e deter imigrantes ilegais, fugitivos do país. Em caso de ataque inimigo sua função é servir como escudo humano. Condenar às "flotilhas da morte" foi a saída que o governo italiano encontrou para tentar conter as ondas de violência no interior do país degradado e para protegê-lo dos ataques inimigos, sem mexer no orçamento.

Num tempo em que as aposentadorias são intransferíveis, foi a possibilidade de economizar os cofres da previdência que levou De Falco e outros colegas para o comando das "flotilhas da morte". Capitães experientes (velhos, quase da reserva) e condecorados (aposentadorias mais altas), os respeitáveis da Guarda Costeira receberam com ódio, mas sem revolta, a missão de comandar as iscas de torpedo do sistema prisional. Sobrevivendo ao possível ataque, eles  têm ordens expressas para tentar salvar os italianos do naufrágio, mesmo os presos. Como De Falco deverá salvar Schettino a imprensa internacional acompanha apreensiva os incidentes com a "Berlusconi".

Nessa manhã o capitão sente dificuldades para amainar a violência dos pensamentos, medita há quase uma hora e ainda não conseguiu. Ele salvaria Schettino sem vacilar, até gosta do infeliz. O que oprime De Falco é se sentir atado a um mundo que não precisa dele, que o faz herói quando convém e o manda para a morte em seguida. No passado sabotadores e piratas tiveram maior comiseração.  


Uns poucos repórteres narraram o drama dos velhos capitães da Guarda Costeira italiana. De Falco declarou ao Pequim Times, "Sou um nome dilacerado pela boca úmida dos tubarões, em dez anos fui untado com a glória e servido às fomes da infâmia. Me sinto o guarda das ruínas. Toda honra é mesmo uma sobra de poder. Porca miséria!".



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O céu

Fotografia: Tati Russik

Sobre como eu me perco no tempo.
Certas manhãs em que o dia chama com maior desespero, mal acordo e já me lanço em antecipações. Imagino os caminhos por onde ir, lembro o gosto do café-com-leite da padaria (enquanto escovo os dentes), faço careta para a casca áspera do pão de sal (eu deveria comer mais frutas). Logo estou pelas ruas a cumprimentar e me esquivar das pessoas a um só tempo, num ritual engraçado quando as calçadas são largas, pois ganha um quê de dança de salão. As ladeiras instigam as danças mais incríveis - reparem no baile da Rua Direita, em Ouro Preto, ou na Ladeira do Bonfim, em Salvador. Quem sobe ladeira sonha chegar ao céu como recompensa, ele é quase palpável no horizonte agudo dos morros, vidro azul lona cinza. O céu é velho e já viu de tudo, os campos de concentração  na Armênia, a flor brotar do asfalto, a aurora boreal e as bigas de batalha, o sacrifício de ovelhas e o Vesúvio cuspir fogo. O céu, creiam, viu Adão, de repente obsceno, acariciar com os dedos dos pés a relva orvalhada do Paraíso. Viu a nuvem de calças e o espanto dos primeiros homens que, ainda meio sem querer, fizeram fogo. O céu viu os três crucificados no Gólgota - e conta, um vento feito de frio e silêncio varreu o oriente-médio. O céu, olhando para trás, viu o primeiro homem a pisar na lua e intuiu que São Jorge jamais matará o dragão, sabedoria de guerreiro lunar. Nas noites em que está mais triste ou cansado o céu dorme e sonha com ágeis cometas ardentes e grandes explosões solares.
Eu, por um instante, já sem caminhar, chego a esquecer aonde ia.   




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Bob Marley

A Ilustrada não deu, o Globo perguntou foi quando mesmo? No Estado ninguém quis falar sobre isso. Nem nas redes sociais alguém se lembrou. A imprensa do mundo e os fãs brasileiros se esqueceram do aniversário de Bob Marley. 
Por que será?




Mas a Costela Social presta a sua homenagem contando uma lenda do sertão brasileiro. 


De acordo com relatos de sertanejos e jamaicanos, as formas originais do reggae foram definidas quando chegou até as mãos de Bob Marley um disco de Luiz Gonzaga. O jamaicano, por razões sensíveis, desacelerou a batida, e entrou para a história da música e das humanidades.






Biel fez aniversário e se mudou para São Thomé

Imagem: Grupo Galpão
Para Biel, meu amigo e sobrinho.


Ontem o Biel fez oito anos e se mudou para São Thomé das Letras, sem maiores explicações, como se uma coisa e outra fossem igualmente naturais. Nem nos despedimos, levamos assim a vida, com menos formalidades. Na última vez em que o vi era alta madrugada, eu escrevia quando ele entrou quarto e cometeu o maior charme do mundo sem perceber - deve ser isso o que chamam de inocência. Ainda muito sonolento, coçou um olho com as costas da mão, tentando se lembrar como foi parar ali. Caminhou até o guarda-roupa e se deitou sobre a pilha de cobertores. “Não é apertado, o (ca)Nino dorme assim, enrolado. E eu nem tenho rabo”.  “Tudo bem, quando você dormir te levo para a cama?”. Ele sorriu e deixou fechar os olhos. Nossa relação é calma e sem nãos. As lições nascem de poesia, conversas sobre o que não são as coisas. “Olha essa foto tio, tem montanhas que crescem até furar as nuvens. As ruas são seguras, a vida é que é perigosa. Os pássaros gostam dos fios elétricos porque quando o vento passa eles assoviam. Quando tá tudo pronto é hora de começar outra coisa. Que belo o vôo dos goleiros quando eles não alcançam a bola. As nuvens brancas nunca fazem barulho, mesmo quando voam baixo, viajam pelo céu azul sem planos, levando as sombras daqui para ali, fazem mais cores do que chuvas.” Quando nos encontramos, temos o cacoete de rir um para outro só com um canto da boca. Preciso me lembrar de comentar com o ele que esse é um modo legal de se começar boas amizades. E ele me dirá milhares de outros incríveis. Fiquei feliz por ter ido, apesar da falta que faz o barulho dos amigos brincriando no quintal como se fosse a rua. Em São Thomé das Letras as ruas serão o quintal, cheias de mistérios, fadas e dinossauros. Um universo novo inteirinho para desvendar, eu não saberia sonhar um presente de aniversário desse tamanho.


sábado, 28 de janeiro de 2012

Lucian Freud



Quando Jane MacAdam Freud era criança, durante anos – talvez três - ela manteve uma fazenda em seu quarto. Potros, patos, gatos, sapos, gado, onças, terras aradas feitas de guardanapos de  pano, uma picape amarela de fabricação italiana e um trator alemão compunham a sua gleba. Na modorra das tardes sem fim, sem que sua mãe soubesse Freud fazia tempestades na fazenda com o regador, ocasião em que, para evitar a inundação do quarto, construía diques com três panos de chão enrolados, que eram também as serras e o horizonte daquele universo. Apenas o porquinho-cofre escapava das chuvas, pois Freud temia que as moedas enferrujassem. Ademais era uma peça gigantesca se comparada com o restante da fazenda, sonhá-la como parte da paisagem campesina exigia da imaginação uma volta a mais no torniquete do real. Por isso ela nunca considerou à sério a presença do cofre ali, como um pórtico inflável sobre o chiqueiro. Mas foi porque certo dia tomou o porquinho-cofre nas mãos e o sentiu pesado demais que Freud resolveu usar seu gado para investir. Trocou um bovino adulto por duas crias a cada final de manhã de terça-feira. Começou barganhando todos os bois azuis. Nesse dia era preciso acordar mais cedo para a natação, havia algo de heroico e maduro em interromper o sono para ir ao clube, as endorfinas liberadas pelo nado inspiravam na jovem uma gozosa segurança, Freud contudo nunca procurou entender o que fazia os finais de manhã de terça lhe parecerem perfeitos para os negócios. Já não tinha bois de cor alguma quando se convenceu de que as novilhas de plástico jamais crescem. Foi um golpe duro para ela ser traída pela inocência. Seu bisavô, Sigmund Freud, levava os dias a ler e a conversar com gente esquisita e virava noites escrevendo cartas e tratados. Segundo o folclore da família ele comia mal, dormia pouco e se divertia aconselhando os amigos mais mancebos, para chocá-los, "bata na sua mãe enquanto ela é nova". Jane hoje tem 53 anos, ainda jovem decidiu ser escultora, nunca lhe ocorreu entalhar uma fazenda, mas é de sua autoria um rosto assaz misterioso. O lado esquerdo da cabeçorra dorme imperturbavelmente, mas não sonha, está morto. O lado direito tem o olho incrivelmente vivo, curioso. A boca é de tal modo que, vista de frente, imprime fúria ao rosto. Ninguém ignora que se trata do pintor Lucian Freud, pai de Jane, enquanto trabalha. Quando posou para a filha o velho Lucian já padecia, faleceu sete meses passados. 

Jane Freud encara sua escultura.
Foto: Folha de SP
  

domingo, 22 de janeiro de 2012

O dia em que Tom Zé foi para São Paulo

Caravelle da Varig

Nos idos de sessenta, Caetano Veloso convenceu Tom Zé a se mudar para São Paulo, mas não foi fácil. O mais sertanejo dos tropicalistas careceu de se demorar com as promessas. Calado, levou um tempo pensando sem tencionar responder. Quando Caetano insistia no convite, ao invés de sim ou não muitas vezes ouviu, “rapaz, você está louco?!”, dito por aquele homem pequeno e franzino erguendo os ombros para se agigantar, sobrecenho franzido, olhar vivo quase colérico, compondo o jeito sertanejo de se atarracar para não se deixar convencer antes de ruminar o futuro. Sabedoria de Riobaldo, “o senhor enche e não enche, tudo é e não é”. Caetano estava curioso para ver como o olhar telúrico de Tom coloriria a grande cidade, mas o artista de Irará adiava a decisão com suas ideias estranhamente encantadoras. Até que em certa manhã Tom Zé se convenceu a ir e embarcou com Caetano em um caravelle da Varig. Ainda durante o voo começava o espetáculo intuído por Caetano, um sertanejo genuíno interrogava a modernidade.
Passa a aeromoça: desejam algo?
Tom Zé: uma cachacinha, por favor.
Aeromoça: Desculpe senhor, mas não temos cachaça.
Tom Zé: “Mas como não tem? Como não tem?” - com impaciência, ficando outra vez atarracado. “Então eu vou descer é agora”, se levanta e saí marchando pelo corredor decidido, com tamanha verdade que Caetano e a aeromoça partem em socorro. "Estamos voando homem, não dá para descer agora.”
“Pois então parem essa caravela!”,
disse Tom Zé, antes de explodir para sempre sua deliciosa gargalhada.