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| Noites de Cabíria - Frederico Fellini |
(a música no link ao final do texto faz parte da crônica, recomendo ouví-la durante a leitura)
Confesso a inveja que sinto de quem domina os pensamentos como quem guia um carro. Um pouco atordoado, só faço contemplar o infindável desfile de ideias e imagens que não escolhi para mim. Lolita diz que a vila toda me acusa de parvo graças ao desmazelo das minhas roupas e ao inútil das minhas ocupações prediletas. Mas não me recordo de ter sido vítima desses boatos, ou de ter me importado com isso, o que vem a dar no mesmo.
Isso não quer dizer que eu seja completamente alheio ao que penso, acontece que o proveito das ideias para mim vem só depois, como uma lucidez tardia de realidade passada. Com essa réstia de mundo componho minhas esperanças. Hoje decidi que ontem tinha resolvido passar a manhã de hoje nas ruas levando a poeira suspensa no ar para um abrigo tranqüilo. Pastorear poeira requer grande sabedoria, é preciso conhecer os rebotes de luz que revelam o balé calmo e mover as mãos com delicadeza para não enfurecer o voo leve das partículas.
Isso não quer dizer que eu seja completamente alheio ao que penso, acontece que o proveito das ideias para mim vem só depois, como uma lucidez tardia de realidade passada. Com essa réstia de mundo componho minhas esperanças. Hoje decidi que ontem tinha resolvido passar a manhã de hoje nas ruas levando a poeira suspensa no ar para um abrigo tranqüilo. Pastorear poeira requer grande sabedoria, é preciso conhecer os rebotes de luz que revelam o balé calmo e mover as mãos com delicadeza para não enfurecer o voo leve das partículas.
Os garotos da escola caçoam de mim dizendo que podem aprender coisas tão difíceis que eu jamais conseguiria entender. Bato na cabeça com a mão fechada imaginando mil complicações. Entalhar um bom verso, descansar o olhar ébrio da noite com sonhos de cinema. Lolita diz que eu sou um relógio atrasado e que relógio que atrasa não adianta (e se ri do trocadilho infame).
Ora, os pensamentos, eles de fato não servem para nada, podem no máximo fazer uma alma triste ou feliz feito um balão de papel que se inflama sobe e arde até se consumir e sumir no céu todo metralhado por milhões e milhões de estrelas rebrilhantes. Para me livrar deles (sente como se aceleram vertiginosamente?) saio de casa e me precipito ladeira abaixo, correndo descalço pelas ruas calçadas da vila, com o corpo mais leve a cada passo mais veloz, os calcanhares já não tocam o chão, como eu fosse voar...e então voo deveras







