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domingo, 14 de agosto de 2016

Um anão de jardim: entrevistreta




Confira no blogue lavrense O corvo-veloz, do jornalista Sebastião Filho, a entrevistreta que concedi, em Los Angeles, Califórnia, à Ricardo Marcato. Clique aqui


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terça-feira, 7 de junho de 2016

CONFESSIONÁRIO

Lelo de Brito in Eu, anão do meu jardim
O CRONISTA

Para a minha irmã Andréia, 
pelo aniversário.

Sou o cronista, um trabalhador braçal da palavra. 

Canhoto com mão e destro com o pé, persigo histórias apagadas pelo Dilúvio. 

Pois que a boa escritura passa também pelos pés. Foi com eles que nos iniciamos no relato. Sem narrativas não se compõem caminhos, mas somente movimento autômato. Foram os pés as primeiras mãos da espécie, com que traçamos no mundo as primeiras orações rumo à humanidade. Ah, a humanidade, perdida para nós, de que somos reles expressão teatral embaciada.

É por força herege a tudo que escrevo. Por absoluta falta de caráter. Eu não tenho caráter, nem identidade. Para quê? Muito tarde fui apresentado a Aristóteles e Kant, e aprendi deles pouco e mal. Não me censuro. Pessoas de caráter têm feito vergonhas medonhas, lê-se nos jornais. 

Lelo de Brito na civilização
Em sociedade, antes de abandoná-la e à seriedade, o posto de maior prestígio em que fracassei foi o de professor universitário. Ora, vá lá, não ignoro que há homens realmente superiores, que vão à lua e andam sobre o mar como se andassem na rua. Não me gabo de mim, nem de prestígios da universidade brasileira. Sem ter sido superior ou duradoira, a docência em que fali a deixei por inaptidão para a seriedade. O diagnóstico é psiquiátrico. 

Antes de trocar a sociedade pela literatura eu era confuso. Sentia a sério que nada era muito sério no Brasil. Parecia-me que no Brasil o responsável nunca estava: que sempre e sempre ele tinha saído para um cafezinho, para dar uma carona à filha até o shopping. E,  no trânsito, nas ruas e saguões eram todos graves, seriíssimos. E mais, furiosos. O brasileiro que vai daqui para ali é o furioso nato. Rodrigueano - conheci um jovem roqueiro de nome Saldanha que desconhecia Nelson Rodrigues, mas aí é outra história.

Sem saída, escrevo por falta de um navio com roda de pás lateral em que eu fuja de Três Corações pelo rio Verde. Três Corações, se ignoras, é um buraco em que se cai, é um cu donde não se sai. E não por isso eu escrevo. Em homenagem à cidadela tricoronária, escrevo por troca da chance que ela me dá de ir bêubo rua fora à noite e topar com um cometa. 

No reino em que vivo e me criei, vi tudo e descabacei El Rei.
Rei Pelé e Lelo de Brito
Fotografia: Ricardo Marcato
Escrevo, a rigor, por não ter nascido persa: se o tivesse venderia tapetes voadores de segunda mão. Porque meu sentimento do mundo é o de ser eu um barco rebocador de navios, preto, sujo e obstinado. 

Ah, que nos entretermos com sandices assim de nada sirva a alguém. Pensar, que importa? Pensar é uma bobagem grega. Nada valerá mais que a desobstrução do gesto e da palavra, das vozes e contam e cantam. Ainda que vozes em croniquetas que se vendem em rodoviárias. 

Sou apenas um ameríndio, afinal. Um cronista mulato, descendente de povos capazes de ouvir crescer a grama e de enxergar através da neblina. Um retirado da sociedade, desinteressado da vida, que vive entre vozes e palavras vãs. Que sabe que se pode falhar tanto em companhia como em solidão. E escreve. 

Quem lê?

(o final não é feliz, histórias alegres irritam)


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“Eu, anão do meu jardim” não seria impresso sem o apoio da 


terça-feira, 10 de maio de 2016

A BOXEADORA


imagem ilustrativa


Para Thaís Corsetti

Bons lutadores jamais interrompem a respiração. Sob pesada sova ou para o ataque feroz é a respiração que oferece ao atleta a carnadura mais vigorosa. Gladiadores, samurais e mitos do boxe de todos os tempos não ignoraram esta discreta capoeira. 

O que passo a contar pode ser consultado na honorável biblioteca de Inverary, em Glasgow, onde estive na última virada de século a ler, com grande fervor, tudo sobre a trajetória e o mito de Aretha James Noftenhill. Esguia boxeadora estadunidense de ascendência dominicana, ela dominou com assombrosa facilidade os campeonatos nacionais e internacionais de médio-ligeiras da primeira metade da década de setenta. E inscreveu seu nome no folclore dos ringues graças ao inusitado método em que se esmerou para aliciar o tempo. 

O misterioso fim da vida de Noftenhill é motivo de apaixonada polêmica entre velhos fãs de boxe de todo o mundo. Ela não era bela, os olhos demasiado pertos um do outro e os lábios assimétricos a prejudicavam; mas compunham hipnótica a face da fera, “olhos de tigre numa cara de gorila.” Bailarina dos ringues, boxeava como um anjo, com graça e violência.   

A uma edição do Chicago Press hoje amarelenta o lendário Cassius Clay, tendo assistido a dois combates de Aretha James, declarou que ela, para receber um soco inevitável; “recuava e cedia o corpo com a resignação da água que acolhe o mergulhador.” 

Quando se preparava para a terceira defesa do título nacional – dessa vez contra uma ruivinha empertigada de Kentucky – Aretha James revelou ao Illinois Magazine que não saía de casa sem levar, no bolso esquerdo da camisa, o velho roscofe herdado do avô materno. Era o começo do mito. Uma fotografia de quarto de página, em preto e branco, eternizou a diminuta máquina na memória dos fãs da lutadora. O roscofe tinha mesmo uns ares respeitáveis de eternidade, numerais romanos e adornos arabescos prenunciavam o tatibitate pesado e seguro. Com ele Aretha trabalhava em silêncio, no dia a dia, o compasso da respiração. Lutar, para ela, foi um sacerdócio. 

Encerrada a quinta temporada vitoriosa, a crônica esportiva comemorou Aretha James Noftenhill caçando a alcunha de “meteórica” que a acompanhara desde o início da carreira. Nas páginas de um Washington Post de sábado o polêmico cronista Ted Murdoch brincou a respeito do destino de cair dos meteoros, “tão diverso dos calcanhares alados de Aretha James, cujos pés bailarinos, em ação, pouco tocam o chão dos ringues.” 

A notícia da intempestiva aposentadoria da lutadora atingiu os comentaristas esportivos em pleno voo, obrigando-os girar em torno de si aos olhos do público feito panquecas na frigideira. A versão oficial, apresentada em coletiva de imprensa em junho de 1976, creditou a aposentadoria a terríveis dores nos joelhos; dado que, sem convencer, acentuou o mistério sobre o desenredo da lutadora. 

Uma biografia não autorizada, de edição grosseira e produzida à toque de caixa, faturou alto conspirando sobre o enlouquecimento da campeã. Exilada em seu tempo fleumático inventado ela teria oscilado entre a paranoia e a melancolia por meses a fio.

A capa do The New York Times de 19 de setembro de 1976 destacou em foto noturna um similar ao rijo e improvável Ford TT 1946, preto, que veio do passado e atravessou a madrugada para atropelar Aretha James Noftenhill num cruzamento ermo de Chicago. Por três dias e três noites a vida, a febre e a morte disputaram-na no leito do hospital. 

Nos bares e nos ginásios, à boca pequena, a morte de Noftenhill foi atribuída ao submundo das apostas. Com os boatos, a biografia não autorizada logo caiu no esquecimento. 

Norman Mailer assinou o perfil mais afamado de Noftenhill, publicado na ducentésima terceira edição de The People. O laureado escritor anotou que na noite em que a morte veio para levá-la uma chuva calma e obstinada lavou Chicago; “Noftenhill pegou o carro disposta a fugir de casa, da cidade, de sua vida. Levou consigo, numa caixa de sapatos, o roscofe, um lenço branco de bolso com quatro níqueis furados amarrados nas pontas e meia dúzia de lembranças menores do boxe. Mas não foi muito longe. Tendo abandonado o carro nas imediações da academia, um chapéu preto de aba larga galgou sua cabeça e ela se pôs a caminhar até a esquina. Então parou. Ergueu a gola da longa casaca de gabardine, sacou da caixa o roscofe, colocou-o no bolso esquerdo e ganhou a rua sem olhar para os lados.” Muitos criticaram o estilo telegráfico de Mailer.

Aretha James Noftenhill foi uma corsa leve, ágil e selvagem.


Croniqueta do livro "Eu, anão do meu jardim". 

À venda em bares e revistarias tricoronárias, ou por meio do e-mail renatodebrito@gmail.com .